Cientistas e jornalistas discutem o impacto da epidemia em áreas pobres das metrópoles

Por Tiago Marconi*/Ciência na Rua

O exemplo do sarampo serviu ao epidemiologista Maurício Barreto, coordenador do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cidacs-Fiocruz) e professor emérito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para ilustrar como a população brasileira, e a humanidade de uma forma mais geral, vai aprender a conviver talvez longamente com o novo coronavírus, após o tempo mais agudo da pandemia e da quarentena que hoje alcança quase 4 bilhões dos aproximadamente 7,5 bilhões de habitantes do planeta.

“Toda vez que entra um agente patogênico novo na sociedade, não temos defesa contra ele, mas, depois de um tempo, a situação se equilibra, por tratamentos ou vacinas. E quando diminui a vacinação, voltam os surtos. O vírus vai infectar uma grande parte da população e, infelizmente, ele tem uma patogenicidade alta”, disse no fim da manhã da quinta-feira, 9 de abril, a algumas dezenas de pessoas que assistiam pelo Zoom e pelo Youtube a um webinar promovido pelo Ciência na rua e Agência Mural, em parceria com a Rede CoVida e Agência Bori, sobre os desafios adicionais que a pandemia provocada pelo vírus Sars-Cov-2 traz para favelas e todas as áreas de alta densidade demográfica das cidades brasileiras.

“A luta agora é para mitigar a epidemia, com distanciamento social, parando transportes, a luta é para ver se ela segue um curso mais lento em seu processo, mas ela vai buscar quem não está protegido”, acrescentou. Terminada essa grande onda, “com uma grande parte da população infectada e possivelmente protegida – não sabemos se a imunidade será perene, porque há suspeitas de casos de pacientes infectados pela segunda vez” -, vai se dar o retorno  a uma normalidade diferente, pós-Covid, E nela, ele acredita, talvez vejamos os brasileiros saindo às ruas usando máscaras, como fazem os chineses.

Intitulado “O coronavírus nas quebradas”, o evento foi apresentado e mediado por Mariluce Moura, coordenadora do Ciência na rua, e teve a participação, além do epidemiologista Maurício Barreto, do sociólogo Sergio Adorno, do jornalista Vagner de Alencar, da jornalista Sabine Righetti, da comunicadora Ana Paula Morales e da jornalista Raíza Tourinho.

Na apresentação, Mariluce Moura, jornalista científica há mais de 30 anos, explicou que a ideia para o webinar veio de sua preocupação com o avanço da epidemia sobre áreas de grande densidade demográfica  nas maiores cidades brasileiras, sempre marcadas por escassa infraestrutura urbana e habitacional e baixa renda da maior parte desses áreas, após participação em um webinar anterior sobre a cobertura jornalística da pandemia, organizado pela Agência Bori e Instituto Serrapilheira, em 31 de março. A parceria da Agência Mural e a coincidente proposta do coordenador do Cidacs  e formulador da Rede CoVida para juntarem esforços na realização de debates online de grande interesse público nesse momento, consolidaram a iniciativa, a que se juntou também a Bori.

Ela mencionou um workshop, que aconteceu na noite da quarta-feira, 8, organizado pela agência Énois, chamado “Covid-19 nas periferias: como fazer a cobertura a partir dos territórios” e uma questão que surgiu nesse contexto: “por que a favela está entrando na moda nas discussões da pandemia”. Uma das participantes do workshop, Cíntia Gomes, correspondente da Agência Mural no Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo, sugeriu que a uma das razões seria a preocupação com falta de mão de obra. Outra participante, Elena Wesley, editora da Agência Narra, avaliou que os governantes temem as consequências imprevisíveis de uma explosão da epidemia nessas regiões historicamente negligenciadas.

Moura mencionou ainda uma reportagem da Folha de São Paulo que mostra que, apesar das preocupações com renda, a ampla maioria dos moradores dessas áreas apoia a manutenção do distanciamento social. Finalizou sua apresentação explicando que o debate buscava trocar experiências para entender como jornalistas, comunicadores populares e pesquisadores científicos podem trabalhar em convergência para que narrativas ricas, precisas e rigorosamente éticas se apropriem culturalmente da compreensão do fazer científico e da dimensão que esse fazer tem na vida de todos, expostas nestes dias em discussões sobre a ausência de vacinas e de incertezas sobre que drogas podem curar as lesões mais graves e letais produzidas pelo novo coronavírus.

Em seguida, Maurício Barreto começou sua fala apontando que o surgimento de uma epidemia desta dimensão não é surpresa e vinha sendo discutida no mundo científico há muito tempo, de forma comparável à discussão sobre a irrupção de terremotos em algumas partes do globo, que vão acontecer, e se a sociedade estará ou não preparada. Não estava, no caso da epidemia.

Referiu-se a políticas neoliberais que desmontaram várias estruturas como causa desse despreparo, em diferentes países. Outra causa, disse, é a falta de governança global, com a fragilidade de organismos multilaterais, uma Organização Mundial da Saúde (OMS) frágil,  e sendo ainda mais fragilizada com o anúncio, por exemplo, do presidente dos Estados Unidos de que cortaria a já modesta contribuição desse país ao órgão internacional. Chamou a atenção em seguida para a expectativa do avanço da epidemia nos países em desenvolvimento, mencionando que há evidências, na China e nos EUA, de que a desigualdade é um complicador. “Pessoas que vivem em condições piores sofrem mais com a epidemia, por várias razões”. Do ponto de vista científico, destacou a enorme produção científica nos últimos  4 meses desde o início da epidemia, com uma média de 60 artigos científicos diários e pico de 170 artigos em um só dia. Lembrou, entretanto, que nem toda essa produção tem boa qualidade.

Lembrou ainda a circulação de notícias falsas e o surgimento de falsos profetas, mencionando um relatório da Rede CoVida sobre a construção, “bastante sofisticada”, da informação de que a suplementação de vitamina D teria bons resultados contra a covid-19. Em seguida, destacou a extrema confiança com que se trata uma futura vacina, ao passo que não não existe qualquer certeza de que ela vá de fato existir. “Em 30 anos, bilhões de dólares foram gastos, e não temos uma vacina para HIV” .

Por fim, refletiu sobre o mundo após a epidemia e o impacto nos campos econômico, simbólico, social e político. “Enquanto uma vacina efetiva não chegar, vamos ter que viver em um outro mundo, porque o vírus não vai acabar, vai continuar circulando nos espaços sociais, e teremos que desenvolver estratégias de convivência com esse vírus”.

Vagner de Alencar, cofundador da Agência Mural, uma rede de quase 80 jornalistas espalhados pelas periferias da Grande São Paulo, na intervenção seguinte destacou a situação histórica de ausência de serviços básicos, inclusive de saúde, para as populações dessas áreas, que se torna mais grave durante a epidemia, atraindo a atenção de toda a imprensa. “Tem uma questão chave na existência da Agência Mural e dos comunicadores periféricos no Brasil inteiro: a partir do momento em que a imprensa está falando sobre as periferias – e esperamos que ela não penda para a tragédia, porque até então periferia sempre foi sinônimo de tragédia ou estereótipo –, que haja um serviço mesmo, o que as periferias precisam mais do que nunca é ser bem informadas para poder entender o que está acontecendo, sobretudo quando vem desinformação do próprio governo”.

Alencar mencionou a grande quantidade de fake news se espalhando especialmente por Whatsapp, inclusive tentativas de fraude em relação à renda básica emergencial. “Boa parte das pessoas não entendeu a complexidade do problema e está levando uma vida normal”. Uma das estratégias para combater a desinformação foi o lançamento do podcast Em quarentena, justamente para ser disseminado por Whatsapp.

Depois foi a vez do sociólogo Sergio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de SãoPaulo (NEV-USP), que atualmente coordena um projeto sobre violência, direitos humanos e confiança dos cidadãos nas instituições de justiça e de aplicação de lei e ordem. Para desenvolver esse estudo, o grupo de pesquisadores tem se ocupado em fazer o que chamou de uma “radiografia” da cidade de São Paulo. Ele avalia que a contribuição possível dos sociólogos neste momento é aumentar, disponibilizando os resultados de seus estudos, a qualidade e a eficiência das ações do poder público.

Como explicou em entrevista ao Ciência na rua, a divisão de São Paulo entre centro e periferia não dá conta da complexidade da metrópole. “A cidade é muito heterogênea, muitas vezes um território condensa diferentes características, trabalhadores de baixa renda com famílias de classe média alta, convivendo e segregando-se também, de uma maneira muitas vezes perversa”. A partir de 19 indicadores socioeconômicos, o estudo distinguiu oito agrupamentos diferenciais, cada um com seus problemas e diferentes medidas. “Isso significa que não se pode ter políticas gerais para territórios que têm singularidades”. Apontou como um problema grave, em especial neste momento, a falta de sintonia entre o poder público através de suas administrações regionais e a cidade real. “A composição política e administrativa da cidade não corresponde ao que é a cidade”.

Sabine Righetti, jornalista e pesquisadora nas áreas de comunicação, percepção de ciência e cienciometria, falou sobre o intenso trabalho desenvolvido nas últimas semanas pela Agência Bori, especializada em disponibilização de artigos científicos e notícias científicas e, coincidentemente, lançada em fevereiro, às vésperas do início da epidemia no Brasil. O objetivo da Agência, que coordena junto com Ana Paula Morales, é dar visibilidade à ciência brasileira, que costuma aparecer pouco na imprensa. Na quarta-feira de cinzas, com as instituições científicas do país fechadas devido ao feriado, ela começou a receber mensagens de outros jornalistas em busca de entrevistados para repercutir o primeiro caso confirmado de covid-19 no Brasil. As coordenadoras da agência decidiram então fazer um esforço especial para apoiar os colegas na cobertura da pandemia, juntando estudos e relatórios sobre o tema e listando pesquisadores como fontes para assuntos específicos, entre outras iniciativas.

“Ajudamos na cobertura tentando aproximar os cientistas e jornalistas brasileiros, de uma forma geral e, agora, no contexto da pandemia”, acrescentou Morales, que é biomédica de formação e divulgadora científica. Ela explicou que, na parte do site da agência restrita a jornalistas cadastrados, estão sendo disponibilizados diversos materiais de apoio à cobertura: orientações e comunicados de sociedade científicas brasileiras, vídeos de pesquisadores, estudos feitos por pesquisadores brasileiros, pré-prints (artigos ainda não revisados por pares), além de organizarem webinars. Destacou que o banco de fontes já tem os contatos de mais de 70 pesquisadores dispostos a atender a imprensa, entre virologistas, epidemiologistas, psicólogos, químicos, farmacêuticos etc. “Apesar da urgência e da mudança de foco, estamos conseguindo ajudar a imprensa brasileira”. Righetti ainda acrescentou que, em média, um artigo científico novo (revisado por pares) é publicado sobre o coronavírus a cada três horas.

Encerrando a primeira rodada, falou Raíza Tourinho, uma das coordenadoras de comunicação da Rede CoVida. Ela refletiu sobre a oportunidade que a pandemia dá à sociedade de pensar na construção de um mundo menos desigual, mais baseado em valores coletivos do que em interesses individuais, e avaliou que foi nesse espírito que se constitui a Rede CoVida, há apenas três semanas, focada na colaboração e na solidariedade, num esforço conjunto entre o Cidacs e a UFBA, com participantes de outras instituições de diversos estados.

Um dos objetivos da rede é entender o que está acontecendo, apoiando-se no conhecimento científico para reduzir os danos da epidemia, e para isso compila dados e informações que vêm a público. O outro grande objetivo é fazer esse conhecimento circular para além do mundo acadêmico. “Temos encontrado uma solidariedade muito grande, as pessoas querem contribuir nas suas áreas de expertise“. Tourinho destacou a importância da comunicação para o acesso real da população à saúde e a “derrubada do muro” que costuma separar cientistas do restante da sociedade. Por fim, revelou o intuito da rede de atingir não só periferias urbanas, mas comunidades tradicionais, ribeirinhos, extrativistas etc. Maurício Barreto acrescentou que, para a CoVida, neste momento, mais importante do que propriamente fazer pesquisa é sintetizar e coordenar as evidências científicas sobre a pandemia com urgência e, para isso, contam com cerca de 80 pesquisadores debruçados sobre a literatura publicada todos os dias sobre os diferentes temas relativos à covid-19.

Em seguida, a pedido da mediadora, Maurício Barreto desenvolveu mais o tema da convivência que teremos que estabelecer com o SARS-CoV-2, como aparece no começo deste texto. O desafio do momento é “acalmar” o vírus até que se tenha uma vacina. “Terminado o terremoto, temos que passar a uma convivência tensa com o vírus e sua dinâmica no meio ambiente”.

Uma pergunta do público, baseada em relatos de moradores da Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, trouxe a questão da desinformação disseminada por grupos religiosos neopentecostais e quais estratégias usar para enfrentar isso. Vagner de Alencar relatou que a impressão é de que, até as declarações do presidente Jair Bolsonaro, muitas pessoas estavam mais conscientes sobre a necessidade de isolamento social, mas a desinformação vinda do próprio governo tornou a situação mais difícil. “Estamos tentando informar, conscientizar, para que não seja preciso que o parente ou o vizinho da pessoa morra para que ela entenda a gravidade disso tudo”.

Ana Paula Morales lembrou de um artigo de capa da revista Science em 2018, que calculou que notícias falsas, especialmente em temas de saúde, se propagam muito mais rapidamente do que notícias verdadeiras e apontou o desafio de tornar as verdadeiras tão atraentes quanto as falsas. Voltando a um dos primeiros temas do debate – e tema central do webinar –, Sabine Righetti comentou o aumento da demanda de jornalistas, nos últimos dias, por pesquisadores que tratem do avanço da epidemia em favelas, para o qual não há modelos matemáticos prontos. “Esse é o assunto do Brasil neste momento, vai ser o assunto da imprensa, precisamos de cientistas que falem com a imprensa, eles precisam assumir esse papel”.

“O coronavírus nas quebradas” foi o primeiro webinar organizado pelo Ciência na Rua, Agência Mural, Rede CoVida e Agência Bori. Outros virão. O da próxima quinta-feira, às 11 horas, deverá abordar os testes de detecção do novo coronavírus, suas diferenças e aplicações adequadas.

Veja abaixo a íntegra do webinar:

*Matéria publicada originalmente no site “Ciência na Rua”

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