Artigo: Fake news sobre cloroquina e a epidemiologia clínica

Por Naomar Almeida-Filho*

Ontem, começou a circular nas redes sociais uma notícia sobre suposta aprovação, pela Food and Drug Administration dos EUA, da droga anti-malárica cloroquina para tratamento da COVID-19. A “Rede CoVida – Ciência, Informação e Solidariedade” interceptou essa fake-news…
“Notícia saída agora do forno. Jornalista Elisa Robson escreveu:
O FDA, a agência americana de regulamentação de remédios, aprovou o uso de hidroxicloroquina em todos os pacientes com o Covid-19. O CEO da Novartis anunciou que já tem em mãos os resultados de pesquisas que comprovam que a hidroxicloroquina mata o vírus. Tanto que a empresa vai doar 130 milhões de doses. O custo médio do medicamento no mundo é de US$ 4,65 por mês. Ou seja, tudo indica que a solução vai chegar bem antes do que muita gente gostaria. Talvez seja, inclusive, decisiva para reverter o cenário apocalíptico previsto para as próximas semanas e mudar o curso deste rio. […] Pois por trás disso, para os que querem continuar lucrando, e enfatizo o politicamente, com o pânico e o desespero, o pensamento que predomina é: “A cura não pode chegar tão rapidamente assim!” Mas, se Deus quiser, já chegou. DIVULGUE AGORA”
Foi fácil e simples identificar a suposta fonte. Uma reportagem do Correio Braziliense (12/03/2019) reproduziu matéria da Agência Estado que, por sua vez, referia ao jornalismo investigativo da Folha de S. Paulo.
“Nomeada assessora parlamentar no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), a jornalista Elisângela Machado dos Santos de Freitas repassou ao próprio marido 59% dos recursos que recebeu do fundo eleitoral em sua campanha à deputada federal pelo PRP no Distrito Federal, no ano passado. Ela obteve 11.638 votos e não se elegeu. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Elisa Robson, nome usado por ela na urna, recebeu R$ 25 mil do fundo eleitoral destinado ao seu partido, constituído por dinheiro público, e gastou R$ 14,9 mil com Ronaldo Robson de Freitas, com quem é casada. O caso foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo.”
Para o que nos interessa, no entanto, bem mais importante que desmascarar a origem dessa fake-news, simples mentira contada e divulgada por mera má-fé e desonestidade, será aproveitar para rapidamente repassar um resumo, brevíssimo, sobre o que é um ensaio clínico controlado. Em Epidemiologia, num importante capítulo chamado de Epidemiologia Clínica que depois evoluiu para a “Medicina Baseada em Evidências”, preferimos chamá-los de “estudos de intervenção” .
Nesses estudos, pesquisadoras/es pretendem testar o efeito real (eficácia ou efetividade) de procedimentos diagnósticos, preventivos ou terapêuticos. O objetivo é identificar efeitos isolados e significativos de um remédio, uma vacina ou qualquer procedimento clínico ou cirúrgico, mediante comparação entre um grupo de participantes que recebem a intervenção e outro formado por sujeitos não-expostos à intervenção, para comparação.
Para termos confiança nas conclusões, precisamos introduzir controles rigorosos no experimento: (a) nas variáveis estudadas; (b) na composição dos grupos; (c) na medida do efeito esperado. Em primeiro lugar, com relação ao controle das variáveis, os estudos de intervenção podem ser classificados como controlados ou não-controlados, sendo desejada a presença de grupo de controle. Um estudo sem grupo de controle é praticamente inútil porque nunca poderemos afirmar conclusivamente que o efeito positivo (melhora ou cura) foi devido à intervenção. Se aplicarmos compressas quentes a todos os pacientes de Covid-19 que chegam num dado hospital e 80% se curam, não é possível atribuir às compressas qualquer efeito terapêutico real.
Em segundo lugar, é preciso também controlar a composição dos grupos. Nesse critério, os estudos de intervenção podem ser: 1) randomizado – com grupos de casos e de controles selecionados por sorteio (sem interferência do pesquisador); 2) pareado – estudo com grupos constituídos por pares de casos, garantindo composição rigorosamente equivalente em termos de variáveis selecionadas; 3) rotativo – estudo com estrutura baseada na alternância de grupos, em que os participantes que compõem o grupo experimental são alocados, após um certo período, para o grupo controle, e vice-versa. Estudos com grupos experimentais escolhidos a partir de critérios de disponibilidade ou conveniência têm menor poder conclusivo.
Por último, considerando o controle da medida do desfecho dos estudos de intervenção: 1) duplo-cego – a alocação dos grupos e as medidas são todas feitas às cegas (ou seja, nem os avaliadores nem os participantes têm conhecimento da alocação dos grupos); 2) simples-cego – os participantes não têm conhecimento de sua pertinência aos grupos da pesquisa; 3) aberto – quando todos os envolvidos têm acesso a informações capazes de indicar a alocação dos grupos experimental e de controle. Estudos abertos são vulneráveis à possibilidade de contaminação dos dados pela vontade do experimentador, que poderá, mesmo inconscientemente, interferir nos resultados.
Neste momento, em todo o mundo, milhões de médicos e profissionais de saúde estão cuidando de milhões de pessoas, milhares de pesquisadoras/es (clínicos, epidemiologistas, sanitaristas e outros cientistas) estão lidando com milhares de casos graves, investigando centenas de pistas terapêuticas, com dezenas de esquemas ainda sendo testados. Muitos são cientistas brasileiros, apesar do recente empenho do governo federal em desfinanciar e sucatear nosso parque científico. Notícias falsas como esta ainda vão circular por muito tempo, na medida em que, para diminuir o medo e a ansiedade, qualquer dose de esperança parece funcionar.

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