Artigo: como manter a nossa saúde mental em tempos de pandemia

Por Daiane B Machado*

Se você está experienciando preocupação em excesso, dificuldade para dormir, medo do futuro, medo de contrair o Covid-19 ou de que algum parente seu contraia, você não está só.

A nossa saúde mental pode não ser mais a mesma nos dias de hoje.

Pela primeira vez, a atual geração tem de lidar com um vírus que põe em xeque a forma como nos relacionamos com os outros, a forma como a nossa a sociedade está organizada, como e de onde o nosso trabalho é feito ou até se podemos ou não circular pelas ruas. Imagino que até nos nossos dias mais criativos, a maioria de nós, não imaginava que chegaria o dia em que seria pedido para que toda a sociedade não saísse às ruas.

Muitos acharam que esta seria a oportunidade de tirar das caixas empoeiradas os velhos planos e colocá-los em prática. Outros de que esse seria o tempo necessário para escrever a tese, a dissertação de mestrado ou um antigo projeto. Para alguns foram muitas expectativas criadas, mas que foram consumidas ao longo do tempo. Isso porque acrescentar as tarefas que nunca tivemos tempo de fazer às que já fazemos requereria um aceleramento da produtividade. E isso geralmente não é o que acontece em tempos de pandemia.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) durante esta crise de Covid-19, poderemos apresentar alguns dos vários sintomas: aumento da ansiedade; estresse; esforço excessivo para verificar sintomas, tanto em você quanto em outros; ficar irritado com mais facilidade; sentir-se inseguro ou inquieto, temendo de que algum desconforto físico possa estar sendo causado pelo vírus; problemas para dormir; sentimentos de desamparo ou de falta de controle e pensamentos irracionais.

Para além dos impactos diretos à nossa saúde mental, para muitas pessoas, o Covid-19 também impactou financeiramente, trazendo instabilidade sobre o emprego e renda, especialmente em países como o Brasil, de baixa e média renda, onde, em geral, os governos fornecem medidas limitadas de proteção social para mitigar os efeitos econômicos da pandemia. Estes impactos sobre a estabilidade financeira também impactam na nossa saúde mental.

Ainda não está claro em que proporção a disseminação catastrófica de Covid-19 impactou na saúde mental em todo o mundo, mas é certo de que ela não passará ilesa pelas nossas vidas.

O isolamento social é necessário e ele necessariamente alterará a nossa forma de viver. Aquele cotidiano de acordar, tomar banho, comer e ir trabalhar já não é mais uma realidade. Isso coloca em xeque a estabilidade das coisas. Quando tudo parece estável e até repetitivo o nosso cérebro gasta menos energia para executá-las. Mas quando tudo muda o gasto energético necessariamente é alterado. Isso quer dizer que poderá haver uma sobrecarga que é também estimulada pela quantidade excessiva de informações que estamos expostos a cada minuto, todos os dias. São notícias infindáveis, umas que nos assustam outras que nos dão esperança sobre o fim desta epidemia. Infelizmente muitas delas são falsas, o que nos traz ainda mais instabilidade. Passamos a nos questionar com mais frequência sobre o que é verdade. Em quem confiar?

Muitas das sensações que iremos sentir durante a epidemia serão as mesmas que milhões de outros também sentirão. Compartilhar isso com outras pessoas que gostamos de conversar poderá nos fazer sentir compreendidas (os), menos solitárias (os) nesta confusão toda.

A vivência de cada um, no entanto será única, pois não sabemos de que ponto cada um partiu. Alguns já enfrentavam desafios relacionados à saúde mental antes mesmo da crise, outros não. O curso do impacto dela também é único, imagina que avisamos para todos ficarem em casa, mas são todos mesmo que têm casa? São todos que têm um lar saudável que possa abrigá-los?

As realidades são múltiplas.  Tão múltiplas quanto à quantidade de pessoas afetadas por elas.

Então sejamos gentis, mais do que nunca precisamos deslocar os nossos olhos dos nossos próprios umbigos para enxergar aquele outro que é sim diferente da gente, mas que também está enfrentando os desafios da pandemia.

Seja gentil também com você mesma(o), somar toda pressão externa com a sua própria pressão não vai ajudar.

Algumas recomendações listadas por órgãos de saúde mental são:

  • Se você estiver tomando algum medicamento, certifique-se de ter o suficiente;
  • Mantenha uma perspectiva realista da situação com base em fatos, acessando apenas de fontes confiáveis;
  • Defina limites para notícias e mídias sociais, o fluxo constante de atualizações de mídia social e reportagens sobre o Covid-19 pode fazer com que você se sinta mais preocupado e ansioso;
  • Se você achar que a cobertura do Covid-19 é muito intensa para você, abstenha-se dela por um tempo;
  • Mantenha rotinas saudáveis, sua rotina pode ser afetada pelo surto de maneiras diferentes, mas em momentos difíceis como esse, é melhor manter uma estrutura no seu dia a dia;
  • É importante prestar atenção às suas necessidades e sentimentos, especialmente durante períodos de estresse, se se sentir sobrecarregado converse com alguém próximo ou obtenha apoio profissional online;
  • Faça coisas que gosta e que te relaxem;
  • Exercite-se regularmente, vídeos online gratuitos pode ser uma alternativa;
  • Mantenha rotinas regulares de sono;
  • Mantenha uma dieta saudável e equilibrada;
  • Evite excesso de álcool (em momentos difíceis o álcool às vezes é buscado como uma estratégia de fuga, mas ele também é prejudicial à sua saúde);
  • Pratique técnicas de relaxamento, como exercícios respiratórios;
  • Leia um livro;
  • Procure aulas on-line de alongamento ou Yoga, shows, serviços religiosos (se for uma pessoa religiosa)
  • Melhore seu humor fazendo algo criativo

Por fim, siga as recomendações dos órgãos de saúde, porque elas são pensadas para proteger a nossa saúde. Enquanto isso respire fundo e dê conta hoje só do que é possível para hoje. Um dia de cada vez.

 

*Daiane B Machado é piscológa, doutora em “Epidemiology & Population Health” pela London School of Hygiene & Tropical Medicine, pós-doutoranda do Cidacs e pesquisadora da Rede CoVida 

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