Flexibilização de distanciamento social pode gerar aumento de casos

Luana Alencar*

O lançamento do quarto boletim da Rede CoVida, com ênfase na prospecção da falta de número de leitos nas UTIs, foi realizado nesta quarta, 29, em um seminário virtual. Participaram do webinar o doutor em Saúde Pública, Elzo Júnior, a doutora em Matemática pela Universidade do Porto e Coimbra, Juliane Oliveira, e o professor doutor em Saúde Pública pela Universidade de Montreal, Luís Eugênio Portela.

Os profissionais, durante o webinar, trouxeram detalhes e dados atualizados sobre o novo Boletim CoVida, que aborda principalmente a necessidade de ampliação de leitos clínicos e de UTI. O boletim também traz informações atualizadas sobre o panorama geral da pandemia no Brasil, com ênfase no estado da Bahia – estimativas do número de mortes por capital brasileira e a projeção dos cenários no país, caso o distanciamento social seja flexibilizado.

O Webinar

O pesquisador Elzo Júnior, membro da coordenação executiva da Rede CoVida, abriu o encontro falando sobre os objetivos da Rede CoVida e dos boletins do projeto. O pesquisador ressaltou a importância de uma força tarefa inter e multidisciplinar para que responder às demandas e questões sobre a Covid-19 o mais rápido possível e com confiabilidade. Atualmente, pontua Elzo, a rede conta com 150 pesquisadores colaboradores. Entre os principais objetivos da rede CoVida estão a colaboração no monitoramento da pandemia, a síntese de evidências científicas e a sua divulgação em uma linguagem mais popular. A reunião foi mediada pela jornalista Raíza Tourinho, coordenadora da equipe de Comunicação da rede CoVida.

Após a apresentação, a pesquisadora associada ao Cidacs/Fiocruz Bahia Juliane Oliveira, uma das coordenadoras do grupo de modelagem matemática da Rede CoVida, apresentou com mais detalhes o processo de modelagem dos dados para a construção dos gráficos informativos,  com a finalidade de estimar a quantidade de infectados e de mortes ao longo do tempo. Embora a pesquisadora aponte que haja uma dificuldade com a disponibilidade de dados disponíveis, ela mostra como os dados obtidos foram cuidadosamente trabalhados para aprimorar o modelo inicial utilizado pela Rede.

Juliane explicou que as formas de contágio pelo vírus e como a circulação e aglomeração de pessoas assintomáticas, ou seja, que não manifestaram os sintomas da doença, podem aumentar em até 50% o número de transmissão do novo Coronavírus.

O tipo de modelagem ainda propõe o estudo do comportamento da população desde quando o indivíduo está saudável até as possíveis formas de contaminação pela doença. O que foi ressaltado na fala de Juliane é que pessoas assintomáticas também contribuem para a transmissão do vírus. Para calcular essa contribuição, os pesquisadores do grupo de modelagem matemática da Rede CoVida incorporaram alguns fatores ao tradicional modelo SIR.

O esquema acima mostra um indivíduo saudável (S) que foi infectado pelo novo coronavírus. Esse indivíduo pode apresentar sintomas (I_sym) ou não (I_asym). Pessoas assintomáticas vão se recuperar (R), mas é importante ressaltar, mais uma vez, que podem transmitir o vírus a outras pessoas. Por outro lado, indivíduos que manifestarem os sintomas da doença podem ser encaminhados para o atendimento médico, retornar e ficar de quarentena em casa até a recuperação (R). Os casos mais delicados podem exigir o encaminhamento para UTI, podendo se recuperar ou virem a óbito.

Caso haja a flexiblização do isolamento social e a taxa de transmissão por pessoas assintomáticas aumente em 50%, teríamos um aumento de 75% de aumento na curva de casos, 23% a mais de óbitos, 58% a mais de demandas por leitos clínicos e 68% por UTIs.

Por fim, a webconferência teve a participação do professor do Instituto de Saúde Coletiva (ISC/Ufba) Luís Eugênio Portela, responsável pelo grupo de organização de Serviços de Saúde da Rede CoVida e um dos coordenadores da rede, que se dedicou a expor a parte do boletim sobre a disponibilidade e necessidade de leitos. O professor apontou a urgência da ampliação de leitos, afirmando que caso o distanciamento social seja afrouxado, teremos uma discrepância entre a necessidade de leitos clínicos e de UTIs e a disponibilidade desses. No cenário atual, a Bahia superaria o número de leitos disponíveis no dia 24 de maio.

Fonte: Boletim CoVida

Luís Eugênio chama a atenção para a cautela nos dados, lembrando que são atualizados constantemente e precisam ser analisados cuidadosamente. Ainda afirma que há uma defagem entre os dados e a velocidade com que as análises estão sendo entregues, sendo a demora na confirmação no caso de suspeito da doença um dos maiores empecilhos para pesquisas mais precisas, como mostra o gráfico abaixo.

Ainda de acordo com o pesquisador, as informações disponíveis no quarto boletim são cruciais para a organização do sistema de saúde e permite a ação antecipada de medidas que possam diminuir os impactos da pandemia no país, tais como treinamento sobre cuidados intensivos com profissionais de saúde, a possível produção local e nacional de aparelhos para UTIs, a ampliação de leitos e equipamentos para atender aos pacientes, a regulação única de leitos privados, entre outros.

Acesse o boletim aqui

 

Rede CoVida
A Rede CoVida – Ciência, Informação e Solidariedade surgiu em março de 2020 como resposta a pandemia por Covid-19, com o objetivo de unir esforços entre pesquisadores de diversas áreas, em um diálogo interdisciplinar, a fim de colaborar com o monitoramento da pandemia do novo Coronavírus. O projeto é formado por pesquisadores e pesquisadoras do Cidacs/Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (Ufba), com apoio de colaboradores de outras instituições de pesquisa nacionais e internacionais.

Site: https://covid19br.org
Facebook: https://www.facebook.com/redecovida/
Instagram/Twitter: @redecovida

Sobre os palestrantes:
Dr. Elzo Pereira Pinto Júnior – http://lattes.cnpq.br/0272036365893129
Dra. Juliane Fonseca Oliveira – http://lattes.cnpq.br/1597320074497161
Dr. Luis Eugenio Portela Fernandes de Souza – http://lattes.cnpq.br/2768799008412205

*Luana Alencar – doutoranda pelo PPGCIS, mestra e graduada em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Pesquisa e interesse com ênfase em Comunicação e Drogas. Colabora voluntariamente para a Rede CoVida.

Deixe uma resposta