Distanciamento social: Bahia chegou a reduzir circulação em 70%, mas adesão diminuiu

Raquel Saraiva*

A circulação de pessoas na Bahia  foi reduzida em 70%  de 31 de março a 17 de abril. Isso é o que mostra o estudo “Tendências de distanciamento social na Região Nordeste e no estado da Bahia utilizando dados da Google e da In Loco” realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Institut Curie ligados à Rede CoVida. A pesquisa foi feita com base nos dados de mobilidade da Google para o Brasil e unidades da federação, além de informações dos municípios disponibilizadas diariamente pela startup In Loco que utiliza a localização de celulares como parâmetro.

De 16 a 30 de março, primeiros quinze dias após o decreto do governo que determinou o distanciamento social no estado, a adesão ao distanciamento social foi de 64% em relação ao período compreendido de 3 de janeiro a 6 de fevereiro, quando não havia no Brasil casos confirmados pela doença e nem decreto restringindo a circulação das pessoas, como representado no gráfico da Figura 1.

Fig 1. Gráfico de radar indicador da circulação no estado da Bahia. Cada vértice representa uma categoria de localidade definida pela Google, formando um polígono cuja forma muda em função da circulação para cada atividade nos períodos considerados.

De 31 de março a 17 de abril, a circulação foi 70% menor e predominantemente ocorreu em áreas residenciais. Porém, essa dominância foi mais fraca em relação ao que foi observado anteriormente, o que significa que menos gente ficou em casa. Os cálculos foram feitos com base em um indicador de circulação que mostra as tendências de movimentação das pessoas em supermercados, parques, trabalho, trânsito, compras e residências, as seis categorias consideradas pela Google. Segundo a mesma pesquisa, no final do mês de março houve aumento do número de pessoas que foram aos locais que  trabalham. Esta tendência é evidenciada a partir do dia 23.

Nordeste

A tendência apresentada é de aumento da circulação das pessoas nos locais de trabalho em todos os nove estados nordestinos, desde 13 de abril. O Maranhão foi o estado onde a tendência de circulação foi maior, atingindo, no dia 17, redução de 19,8% das pessoas que iam aos locais de trabalho, valor quase duas vezes menor do que os 36,7% alcançados pelo estado do Ceará na mesma data.

A porcentagem média das pessoas que se mantiveram em casa na Bahia foi intermediária em comparação com os valores dos outros estados da região Nordeste. Foi inferior à média brasileira, sobretudo a partir do dia 23 de março. Entretanto, no dia 17 de abril, último dia da série analisada, a média baiana de adesão ao distanciamento alcançou 15,6%, superando a média nacional que, em apenas uma semana, caiu de 18,1% para 14,7%.

Dentre os estados nordestinos, o Maranhão foi o que apresentou os menores registros de gente que permaneceu em casa no período analisado. No outro extremo, é o estado onde mais gente respeitou o distanciamento social e ficou em casa, principalmente a partir do dia 23 de março.

Entre as capitais nordestinas dois grupos se destacam com tendências distintas após o máximo de distanciamento social alcançado: Teresina, Fortaleza e Recife apresentando os maiores patamares, e Salvador, João Pessoa, Natal, São Luiz, Aracaju e Maceió em patamares abaixo daquele observado para o primeiro grupo. Nota-se que de 30 de março a 6 de abril, São Luiz apresentou os menores índices de distanciamento social entre as capitais do Nordeste, mas com tendência de recuperação nas semanas seguintes, o que pode ser observado na Figura 2.

Fig. 2: Evolução do indicador de isolamento social criado pela In Loco para as nove capitais do Nordeste (obs: os pesquisadores se referem a “isolamento social” ao que chamamos de “distanciamento social”)

Afrouxamento

Desde o primeiro decreto de distanciamento social aplicado pelo governo estadual, os baianos aderiram às medidas de modo crescente até o dia 13 de abril, quando foi alcançado o índice mais alto de pessoas em casa. O nível de circulação foi idêntico no estado e no país na primeira semana após os primeiros decretos vigentes respectivamente, a partir de 16 de março na Bahia e em 19 de março no Brasil. Já no período próximo ao dia 23 do mesmo mês, a circulação de pessoas no estado passa a ser menor, comparado com o país, e se mantém assim até o dia 17 de abril, quando a circulação foi reduzida em 61% no Brasil e 66% na Bahia.

O comportamento inicial de adesão ao distanciamento e o relaxamento com o passar do tempo seguem a mesma tendência no país e no estado. A partir do dia 13 de abril observa-se aumento ainda mais expressivo nas saídas das pessoas a supermercados, farmácias e locais de trabalho na Bahia, como é representado na Figura 3, e no Brasil.

Fig. 3: Tendência seguida pela mobilidade capturada pela Google para o estado da Bahia.

Ao final do período avaliado, no dia 17, o afrouxamento observado é bem mais expressivo no Brasil que nos estados do Nordeste. Segundo os pesquisadores, isso pode ser um efeito das primeiras medidas de flexibilização do distanciamento social que foram propostas em outras regiões brasileiras.

Salvador e região metropolitana (RM)

Após o distanciamento social decretado pelo governo estadual, todos os 13 municípios da Região Metropolitana de Salvador apresentaram aumento percentual de pessoas que ficaram em casa. Quando comparada com os outros municípios da RM, Salvador fica em penúltimo lugar no ranking de distanciamento. Entretanto, esse valor representa um percentual duas vezes maior que o número de pessoas que normalmente já ficam em casa (49,02% de 16/03 a 30/03 e 51,74% entre 31/03 a 14/04, contra 25,43% de 01/03 a 15/03), o menor antes da quarentena dentre os 13 municípios, o que é esperado para uma capital.

O município de Vera Cruz, que tinha a quarta maior percentagem de pessoas em casa antes do distanciamento (34,15%) passou para o maior valor médio observado para os municípios da região metropolitana no período de 31/03 a 14/04 (56,75%). Um aumento expressivo também foi observado em Lauro de Freitas, que passou da sétima (31,87%) para a quarta posição (55,59%). Sete municípios não mudaram de posição no ranking (Itaparica, Lauro de Freitas, Dias D’Ávila, Camaçari, Candeias, Salvador e Pojuca), três ganharam (Vera Cruz, Simões Filho e Mata de São João) e três passaram a ocupar posições inferiores em relação ao período inicial do distanciamento, de 16/03 a 30/03 (São Francisco do Conde, Madre de Deus, São Sebastião do Passé).

Distanciamento na Bahia

A porcentagem média de pessoas que ficaram em casa no estado da Bahia apresentou uma tendência de aumento com o passar do tempo, variando de 31,1% (de 01 a 15 de março), para 49,9% (de 16 a 30 de março) e 52% (de 31 de março a 14 de abril). Os pesquisadores destacam que essa tendência parece ter se concentrado em regiões mais distantes da capital, como pode ser visto na Figura 4.

Fig. 4.: Isolamento social nos municípios baianos. As regiões mais claras no mapa indicam maior adesão ao distanciamento social (dados básicos: In Loco).

 

Considerando os oito municípios com maior porte populacional e relevância econômica no estado, também apresentam padrões distintos entre si (Figura 5). O maior índice de distanciamento social foi apresentado por Juazeiro em 12 de abril, o que em termos percentuais corresponde a 74,6%. O município de Barreiras apresentou um dos menores níveis, chegando a alcançar 21,3% em 17 de março, considerando o período após a vigência do decreto estadual. Feira de Santana e Vitória da Conquista também se situam em um dos menores patamares de distanciamento social. A capital Salvador apresentou-se em posição intermediária, principalmente após 23 de março.

Fig. 5: Padrões de distanciamento social nos oito municípios com maior porte populacional e relevância econômica no estado (dados básicos: In Loco).

 

De 16 de março a 14 de abril, a média de distanciamento social na Bahia foi de 44,4%. A microrregião de Juazeiro, no norte do estado, foi a que apresentou maior adesão à medida, com pelo menos quatro municípios com percentual elevado de pessoas que permaneceram em suas casas: Juazeiro (52,4%), Remanso (59,4%), Curaçá (66,5%), Casa Nova (66,7%) e Sento Sé (78,5%). Os pesquisadores destacam que esses municípios já apresentavam um percentual elevado de pessoas que não saíram de suas casas antes do decreto de 16 de março.

De acordo com os autores da pesquisa, os dados evidenciam a importância de realizar análises em intervalos de tempo mais curtos para uma interpretação melhor das tendências de distanciamento social em municípios e outras regiões dentro do estado. Os pesquisadores também ressaltaram que a falta de dados intramunicipais dificulta a realização de uma análise em uma escala micro. Esta é essencial para a tomada de decisões quanto à flexibilização das medidas de distanciamento social.

*Raquel Saraiva – graduanda em Comunicação Social (UFBA), bióloga e mestra em Fisiologia (UFBA), editora do blog de divulgação científica Bate-papo Com Netuno. Colabora voluntariamente para a Rede CoVida.

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