Relatório discute saúde e direitos das mulheres na pandemia

Raquel Saraiva*

Sofrimento psicológico, busca por abortos inseguros, aumento das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidezes não-desejadas e elevação do número de mortes maternas e infantis. A pandemia de Covid-19 pode afetar a saúde de milhões de brasileiras, gerando um problema de saúde pública que não está diretamente ligado ao vírus. Pensando nesse problema, pesquisadoras da Rede CoVida elaboraram o estudo Saúde e Direitos Reprodutivos no Cenário da Covid-19”. Com base em revisão de 152 documentos, o trabalho apresenta informações e advertências sobre o novo coronavírus que abordam o planejamento reprodutivo e aborto, gravidez, pré-natal, transmissão vertical e parto, atenção pós-natal e amamentação.  O material foi utilizado para o sétimo Boletim CoVida.

O trabalho explica que as mudanças na dinâmica social causadas pela pandemia sobrecarregam os serviços de saúde e afetam a disponibilização adequada de serviços de saúde sexual e reprodutiva. Além disso, mesmo os serviços que permaneceram abertos foram afetados, com redução de testes de HIV, de assistência contraceptiva, de combate à violência baseada em gênero e de aborto permitido por lei. Outros enfrentam ainda dificuldades em receber suprimentos, devido a atrasos no transporte de mercadorias dentro dos países e à escassez de contraceptivos e de medicamentos para o HIV. 

Um estudo avaliou que um declínio de 10% no uso de contraceptivos em 132 países da América Latina e outras regiões do globo deixaria mais de 48,5 milhões de mulheres desatendidas, contribuindo para mais de 15,4 milhões de gravidezes indesejadas. O trabalho das pesquisadoras da Rede CoVida propõe uma maior difusão de informações sobre saúde reprodutiva, a disponibilização de contraceptivos sem prescrição, de preferência os de longa duração, e a manutenção dos métodos em uso. 

Atendimento remoto

As pesquisadoras destacam que é fundamental que haja ampliação dos programas de assistência médica remota para garantir atendimentos telefônicos, consultas online ou domiciliares a mulheres de todas as idades. Ressaltam ainda que as consultas presenciais devem ser mantidas para gestantes e recém-nascidos de alto risco. “Às mulheres marginalizadas, é importante disponibilizar equipes móveis para atender suas dúvidas e demandas emergenciais”, sugerem.

Também o acesso à contracepção deve ser feito por meio de consultas e prescrição remota, inclusive para contracepção de emergência. Por isso, é recomendado que mulheres que já fazem uso de contraceptivos mantenham o uso. Consultas remotas também devem ser mantidas para pacientes com HIV, ISTs e hepatites virais, com acesso aos serviços de atendimento garantido. Em tempos de pandemia, é essencial manter o tratamento e prevenir sua  interrupção. Dentre as sugestões apresentadas no relatório estão a revalidação de receitas e o envio de medicação via correio. 

Em caso de recomendação de aborto, o distanciamento físico com equipe médica também deve ser mantido. O ideal é que seja adotado o aborto medicamentoso extra-hospitalar, mas, dentre outros obstáculos, a atividade depende de liberação de medicamentos pela Anvisa. Mesmo quando o procedimento cirúrgico é a única opção, deve-se evitar o máximo de contato.

O trabalho destaca que a restrição aos serviços de aborto tem graves consequências, inclusive sociais, “penalizando especialmente mulheres pobres e de grupos minoritários, que não poderão acessá-la no tempo oportuno”, alertam as autoras. A principal referência de aborto legal de São Paulo, o Hospital Pérola Byington, suspendeu os serviços do dia 26 a 30 de março, para redirecionar esforços ao combate da Covid-19. Porém, os atendimentos foram retomados após intervenção do Ministério Público e da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. No Brasil, o aborto é permitido somente em caso de risco de vida da gestante, em gravidez decorrente de estupro ou quando o feto é anencéfalo.

Dentre os serviços de saúde sexual e reprodutiva, o relatório informa que apenas a reprodução assistida deveria ser adiada, a não ser em pacientes com câncer, com baixa reserva ovariana ou idade avançada.

Amamentação

A amamentação, por sua vez, é recomendada. Até o momento, não foi demonstrada a transmissão do novo coronavírus através do leite materno, “além dos benefícios da amamentação superarem qualquer risco de transmissão do vírus”, ressaltam as pesquisadoras. Mesmo a mãe com Covid-19 pode amamentar, desde que sejam respeitadas as medidas adequadas de higiene. 

A maior ameaça é que o vírus seja transmitido pelas gotículas respiratórias das mães infectadas, e não através do leite materno em si. Por isso é fundamental que a mãe use máscara e evite falar, espirrar ou tossir durante a amamentação. Além disso, é recomendável suspender visitas e praticar o distanciamento físico de outras pessoas e evitar espirro, tosse e beijo para proteger a criança das secreções respiratórias do adulto. 

Caso a mãe não se sinta segura para amamentar ou se a saúde materna estiver debilitada, ela e a família devem ser incentivadas a retirar o leite materno manualmente ou com bombas, para oferecê-lo com segurança à criança em um copinho, xícara ou colher. O trabalho destaca que o uso de fórmulas infantis artificiais deve ser evitado e que o leite materno não deve ser pasteurizado, já que esse processo reduz seu valor biológico e imunológico. 

Em casos mais graves, pode ser prudente a separação temporária do recém-nascido de sua mãe. Entretanto, essa decisão deve ser individualizada, respeitando a decisão materna e dos familiares, porque isso pode favorecer o desenvolvimento de estresse no pós-parto, além de interferir na relação precoce mãe-filho e no estabelecimento da lactação.   

Gravidez e parto

Durante a gravidez e no pós-parto as mulheres estão suscetíveis a desenvolver diversos problemas de saúde mental que podem ser agravados durante a pandemia de Covid-19, principalmente as mães de primeira viagem. O pré-natal deve ser preferencialmente remoto, e o atendimento presencial deve ser reservado às gestantes de risco ou com complicações. 

Quando possível, o atendimento pós-natal também deve ser feito à distância. O acompanhamento médico deve ser mantido nessa etapa para o pleno desenvolvimento do neonato e bem-estar físico e mental da mãe. Além disso, é importante identificar e acompanhar mulheres com risco de desenvolver hipertensão e diabetes, problemas que estão associadas aos quadros mais graves da Covid-19.

As pesquisadoras recomendam que gestantes que exercem atividades em serviços essenciais, como trabalhadoras da saúde, sejam afastadas de seus locais de trabalho imediatamente, em qualquer fase da gestação, “pois os surtos anteriores mostraram efeitos negativos na saúde materna e fetal”.

O trabalho cita um estudo inglês que avaliou 243 partos em mulheres infectadas pelo novo coronavírus. Do total, 26% foram prematuros. Aborto e pré-eclâmpsia foram outras complicações apresentadas por mulheres com Covid-19. O estudo também relata a ocorrência de óbito materno. De acordo com as pesquisadoras, essas mortes podem estar relacionadas à desigualdade no acesso aos serviços de saúde pelas populações mais vulneráveis. 

Embora a possibilidade de transmissão transplacentária do vírus esteja sob avaliação, a maior parte dos estudos não demonstra a infecção intrauterina. As pesquisadoras destacam que a infecção por Covid-19 em si não é uma indicação para o parto imediato. Assim, a cesariana só deve ser escolhida com justificativa médica, como ocorria antes da pandemia. No caso de gestantes saudáveis e de baixo risco, mesmo o parto domiciliar pode ser considerado. 

Máscaras

O uso da máscara cirúrgica ou N95 é indicado para todas as mulheres durante o trabalho de parto, mesmo que não tenham suspeitas de contaminação pelo vírus. Acompanhantes devem ser permitidos somente se não apresentarem sintomas e nem contato próximo com pessoas contaminadas. As pesquisadoras recomendam que prevaleça o respeito à vontade da mãe, que seja estabelecida uma comunicação clara entre ela e a equipe de saúde e que “todas as mulheres, inclusive com Covid-19, tenham uma experiência segura e positiva de parto”.

O relatório aponta que crianças menores de dois anos não devem usar máscaras, pois podem bloquear a boca ou o nariz ao mover o equipamento de proteção. Pode ocorrer também estrangulamento acidental pelas alças e síndrome de morte súbita do recém-nascido. Vale ressaltar que o uso da máscara não substitui o distanciamento social, a lavagem frequente das mãos e outras ações preventivas cotidianas que devem ser mantidos com as crianças. 

O trabalho traz ainda mais detalhes sobre planejamento familiar, reprodução assistida, aborto, atenção pós-natal, incluindo alojamento conjunto no pós-parto e a separação da mãe e do bebê.

Confira o relatório na íntegra aqui.

 

*Raquel Saraiva – graduanda em Comunicação Social (UFBA), bióloga e mestra em Fisiologia (UFBA), editora do site de divulgação científica Bate-papo Com Netuno. Colabora voluntariamente para a Rede CoVida.

 

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