Pesquisadores debatem sobre o uso da Telemedicina na pandemia da Covid-19

Luana Alencar*

A pandemia do novo coronavírus tem trazido dificuldades para a população em diversos âmbitos. A Saúde é, sem dúvida, uma das esferas da vida mais afetadas, muito além do risco e da contaminação pelo vírus. Consultas, exames e cirurgias tiveram que ser adiadas, isso pela falta de profissionais de saúde e pelo risco que as pessoas correm ao irem a postos de saúdes e hospitais e contraírem o vírus.

Por conta desse transtorno, a telemedicina tem sido pensada como uma alternativa para que a população não deixe de cuidar de sua saúde. Para abordar este tema, pesquisadores da Rede CoVida publicaram algumas considerações sobre o uso da telemedicina. 

O que é Telemedicina?

A pesquisadora Kleize Araújo, doutora em Saúde Pública pela UFBA, especialista em Neonatologia pela UNEB e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Integrada em Saúde Coletiva (NUPISC), explica o conceito de Telemedicina:

“A Telessaúde e, em especial, a Telemedicina, podem representar aliadas importantes dos sistemas de saúde no combate à pandemia de Covid-19 em todo o mundo. A sua utilização pode facilitar o acesso oportuno de indivíduos aos serviços de saúde, apoiar o manejo clínico de pacientes, além de reforçar as medidas de distanciamento social, beneficiando os pacientes e os profissionais de saúde na linha de frente do combate à pandemia”.

Fonte: banco de imagens pixabay

 Nota sobre Telemedicina

A nota produzida pelos pesquisadores mostra que além da adoção das medidas de higiene, como lavar as mãos, usar máscaras, lavar as roupas ao chegar da rua, dentre outros hábitos necessários nessa pandemia, a Telessaúde tem sido alvo de estudos científicos como uma alternativa de cuidado à Saúde importante nesse tempo para o combate à doença. As informações que encontramos no documento foram embasadas em achados da literatura internacional e de artigos científicos encontrados na base de dados PubMed.

Os artigos finais elencados para compor a síntese de evidências para a nota técnica, abordam, majoritariamente, experiências internacionais locais com a telessaúde e a telemedicina, o que é importante para entender os prós e contras da utilização dessa ferramenta e as estratégias de combate à doença.

O Conselho Federal de Medicina Brasileiro já reconhece a telemedicina como parte do exercício da medicina. Todavia, tal exercício é mediado por tecnologias para assistência à população, educação, pesquisa, prevenção de doenças leves e para promoção da saúde.

É importante frisar que a telemedicina não substitui a medicina convencional e não deve ser usada indiscriminadamente. Mas é inegável não lançar mão desse recurso quando o período em que estamos vivendo é de distanciamento social. Dessa forma, é possível fazer, via mediação das tecnologias, um acompanhamento de pacientes em quarentena, possibilitando a diminuição de risco por contágio do novo coronavírus.

Podemos pensar, então, na telemedicina como um atendimento primário, em que o paciente passará por uma primeira avaliação e uma triagem que definirão se o tratamento poderá ser feito via telemedicina ou se fará necessário o acompanhamento presencial do paciente. Esse procedimento é conhecido como teleconsulta.

Ressaltamos que o uso da telessaúde não se restringe, nesse momento, apenas a pacientes com sintomas de coronavírus, mas pode ser usada para pessoas com outras necessidades, com o objetivo de evitar que se desloquem e saiam do distanciamento social. Dessa forma, consultas psicológicas, acompanhamento psiquiátrico, acompanhamento de doenças mais leves, dentre outros cuidados, veem na telemedicina uma alternativa viável para o paciente.

Experiências internacionais

Países como a Espanha e os Estados Unidos já tem feito o uso da telemedicina para a triagem de pacientes com suspeita de Covid-19. As tecnologias permitem desde a criação de prontuários eletrônicos à monitoramento de pacientes dentro de uma Unidade Intensiva de Saúde. Nos Estados Unidos, os sistemas de saúde  Medicaid e Medicare abrem a possibilidade de agendamento de vídeo-visitas, que podemos denominar de televisitas. Já na China, criou os chamados Hospitais Virtuais. Como o nome já revela, é o espaço virtual em que é possível realizar alguns procedimentos como triagem, monitoramento de sintomas leves, entrega de medicamentos a domicílio para pacientes crônicos etc. É uma maneira do país evitar que haja um cruzamento de infecções pelo deslocamento de pessoas até os hospitais físicos.

Outra tecnologia que o Brasil e outros países tem adotado é o uso dos benefícios de aplicativos. No Afeganistão, por exemplo, organizou-se uma pequena rede de consulta por meio de aplicativo, com intuito de possibilitar o distanciamento social entre as pessoas. Já EUA, Itália e China tem usado aplicativos para controle e rastreamento de casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus.

No Brasil, esse monitoramento de casos da Covid-19 também já vem sendo realizado e reconhecido pelo Ministério da Saúde em uma força tarefa chamada de TeleSus  O TeleSus permite aos profissionais de saúde poderem exercer a atenção primária ao paciente mantendo o distanciamento social. O projeto inclui o aplicativo Corona Vírus, Whatsapp e atendimento telefônico pelo DISQUE SAÚDE 136.

Temos, também, como iniciativa local do estado da Bahia, o Tele-Coronavírus 155. O serviço propõe orientar a população no geral quanto às medidas de prevenção ao novo coronavírus. O Tele-Coronavírus atende de 7h às 19 horas e é consequência de uma parceria entre o Governo do Estado, a Universidade Federal da Bahia e a Fundação Oswaldo Cruz.

Dificuldades

Embora seja uma alternativa válida para ao atendimento em saúde, o recurso da telemedicina possui alguns impasses que precisam ser avaliados.

“É importante, contudo, que os aspectos regulatórios e éticos sejam observados e que sejam garantidas a segurança do paciente, assim como a qualidade do atendimento”, acentua Kleize.

Fonte: banco de imagens pixabay

Muito embora a portaria nº 467/2020 do Ministério da Saúde regulamente as ações de telemedicina, é preciso manter um olhar crítico e as cautelas antes da ampliação desse serviço de saúde.

Um grande desafio é conseguir que todos os profissionais de saúde se adaptem a essas modalidades de atendimento virtual. Seria ideal que cada profissional pudesse ter acesso a uma formação de como fazer o uso da telemedicina, mas o tempo e os recursos são limitados para essa capacitação.

A utilização da telemedicina encontra barreiras em áreas remotas de acesso à tecnologia, como as áreas rurais, e também entre algumas pessoas que são resistentes ao uso de ferramentas online, ou por não saberem utilizar ou por se sentirem desconfortáveis.

Por fim, é preciso ter o cuidado máximo com a privacidade de cada paciente, o que nos leva a uma discussão que pode ser mais ampla: a Saúde e Ética.

Confira a nota na íntegra aqui

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