Amapá é o estado brasileiro em que a população melhor respondeu às medidas de distanciamento social.

Ação dos governos dos estados salva vidas, mas ainda precisa da população

Por Karina Costa*

As medidas para contenção da Covid-19 no Brasil já salvaram milhões de vidas, mas ainda não são suficientes para frear  o avanço da pandemia no Brasil. De acordo com análises matemáticas, mesmo em estados que foram mais rigorosos na aplicação de medidas de distanciamento social desde o início da transmissão no país, este conjunto de ações ainda não foi suficiente para reduzir a taxa de transmissão da Síndrome Aguda Respiratória Severa por Coronavírus (SARS-CoV-2) para níveis considerados de controle. O estudo revela ainda o papel crucial da  adesão da população às orientações de distanciamento social na redução das taxas de transmissão do novo coronavírus.

As análises foram feita por pesquisadores da Rede CoVida – Ciência, Informação e Solidariedade e encontra-se sob a forma de pré-print no MedRxIV – o que permite rápido acesso aos resultados, mas ainda não passou pela etapa de revisão por pares. No estudo, os pesquisadores avaliaram a dinâmica de transmissão nos 27 estados do país e os efeitos de 547 decretos de governos estaduais relativos ao distanciamento social. Com isso, nota-se que estados que ao longo do tempo intensificaram as medidas tiveram melhor adesão como Ceará, Amapá, Bahia Pernambuco, Acre e Maranhão. Nesses estados, a parcela da população que ficou em casa foi de 40 a 60% ao longo do tempo.

Os estudos revelam que quando um estado cria medida, flexibiliza e implementa mais brandas, a adesão da população é menor do que no começo das primeiras intervenções. Foi o caso de Santa Catarina, por exemplo, que em 13 de abril permitiu a reabertura de shoppings e fez diversas flexibilizações e retornos e a, cada retorno, a taxa de adesão diminuia. O estado de Tocantins, contudo, retornou com medidas tão restritivas quanto no começo e ainda assim a adesão foi menor. 

A pesquisadora que lidera o estudo, Juliane Fonseca, doutora em matemática pela Universidade do Porto e pós-doutoranda do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), afirma que nos estados que apenas mantiveram as medidas iniciais houve melhor adesão e houve diminuição da taxa de transmissão maior do que aqueles que em algum ponto flexibilizou e retornou. Mas os melhores resultados foram observados nos estados que intensificaram e, somados a isso, adotaram medidas ainda mais importantes nas capitais, a exemplo de lockdown.

Outro achado importante é que as medidas na capital afeta o interior dos estados e a diminuição de casos na capital reflete no interior, com intervalo médio de 10 dias na maioria dos estados. Uma das questões é que apesar das medidas de restrição do fluxo intermunicipal, como existe na Bahia, com fechamento da rodoviária, ainda existe fluxo da doença entre a capital e o interior. Para todos os padrões de ação dos governos dos estados, a pesquisa mostra que logo nos primeiros dias, a população tem melhor adesão e que ao longo do tempo as pessoas saem mais de suas casas.

A matemática enfatiza, entretanto, que a restrição de circulação de transporte e lockdowns são as medidas que apresentaram melhores resultados. Os estados cujas ações governamentais foram mais restritivos tiveram melhores resultados de aderência como Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão e Mato Grosso.   

Outra importante constatação do estudo é que o maior vetor de transmissão do vírus é o transporte público e que o atraso de duas semanas por parte do governo do Estado de São Paulo nas medidas de distanciamento social após a primeira notificação de caso – em 26 de fevereiro – é uma das razões para ter acelerado a disseminação da doença no país . 

Dados dos celulares

Para medir adesão, os pesquisadores usaram bases de dados que, através do geomonitoramento (informações com coordenadas geográficas) de 60 milhões de  smartphones, revelam o tempo em que estes aparelhos permaneceram em um raio de 450 metros da localização definida como residência. Esses dados foram disponibilizados pela start-up de tecnologia pernambucana Inloco, e representa dados agregados, ou seja, não informa a identificação de nenhum dos aparelhos de maneira individual. 

Com os dados de localização, observou-se a taxa de adesão comparando com as medidas implementadas pelos estados e as taxas de transmissão do coronavírus e percebeu-se ao longo do tempo três padrões de medidas adotadas  nos estados. Um grupo de estados criou medidas e depois flexibilizou, mas tentou retornar, outro grupo de federações criaram e mantiveram, como São Paulo, e outros criaram e intensificaram, como o Amapá. O último resultou na maior adesão e  controle da transmissão da doença.

Bahia

Esse mesmo grupo de pesquisadores, em outro estudo recente também disponibilizado no MedRxIV (e em fase atual de avaliação por revisores), estimaram que desde o dia 22 de abril o sistema de saúde da Bahia já teria entrado em colapso caso não tivesse criado as medidas de distanciamento social. Estima-se que o número de infectados estaria 20 vezes maior e o de morte 14 vezes se não fossem as medidas adotadas. Ou seja, a Bahia já estaria com mais de 1 milhão de casos e 22 mil óbitos. “Ainda que este número seja dado como ‘superestimado’, apenas o dobro de casos atuais já seria suficiente para ter entrado em colapso”, aponta a pesquisadora Juliane Fonseca, doutora em matemática pela Universidade do Porto e pós-doutoranda do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia). 

Linka direto para estudo sobre adesão: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.06.26.20140780v1

Link do segundo estudo: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.25.20105213v1

Karina Costa * é Mestre em Comunicação e Informação em Saúde pela Fiocruz, analista de comunicação do Cidacs e jornalista pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).

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