“Imunidade de rebanho sem vacina não funciona e é irresponsável”

*por Raquel Saraiva

Seja pela incerteza em relação ao futuro ou cansaço de ficar em casa, as promessas de soluções milagrosas para acabar rápido com a quarentena vêm cada vez mais sendo repercutidas pela sociedade. A cloroquina (ou ivermectina?) da vez é a “imunidade de rebanho”. O problema é que alcançar a imunização através do contágio desenfreado na população seria devastador. 

“Não se pode estabelecer imunidade de rebanho baseado em infecção natural. Isso não funciona e é até irresponsável. Quantos milhões de brasileiros vão a óbito se 80% da população brasileira for infectada?”, rechaçou Ricardo Gazzinelli, Presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) e pesquisador da Fiocruz e da UFMG. Até o dia 13 de julho, o Brasil contabilizou mais de 1,8 milhão de casos e mais de 72 mil mortes.  Pesquisadores estimam que a imunidade de rebanho só será atingida quando entre 60% e 80% da população for vacinada. “Assim você protege inclusive os não vacinados, porque diminui a taxa de transmissão [do vírus] na população. Aí sim conseguimos controlar a doença”, expicou Gazinelli no webinário Bases imunológicas para a vacina contra a COVID-19.

Ocorrido na última quinta-feira (8), esse foi o primeiro de um ciclo de três webinários nos quais serão discutidos vacinas e Covid-19. O evento é promovido pela Rede CoVida em parceria com a SBI, o Cidacs/Fiocruz, a Sociedade Brasilieira de Medicina Tropical (SBMT), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e a Associação Brasileira de Economia da Saúde (Abres). 

Corrida
No mundo, há pelo menos 300 iniciativas buscando uma vacina contra o novo coronavírus. Dessas, 147 são registradas na OMS, sendo duas brasileiras. “Nunca vimos nada assim na ciência e no mundo”, ressaltou Jorge Kalil, que foi palestrante do encontro, junto a Gazinelli. 

O médico e pesquisador do Incor e da USP destacou que, idealmente, uma vacina deve ter ampla cobertura na população e desencadear uma longa memória imunológica: “Nós queremos montar uma vacina que nos dê anticorpo neutralizante, células citotóxicas e que com isso dê uma memória boa e de longa duração”. Gazinelli e Kalil foram convidados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações a desenvolver vacinas contra o novo coronavírus no Brasil, as duas são as únicas brasileiras registradas na OMS e têm o cronograma mais adiantado no país. 

Dentre as várias possibilidades de imunização estão o uso do RNA ou do DNA viral e o uso do vírus inativado. A vacina desenvolvida por Kalil e colaboradores se baseia na resposta imune das células sanguíneas e do soro do sangue de pessoas recuperadas da Covid-19 contra peptídeos que formam os “espinhos”, ou epítopos, do vírus. São eles que se ligam às células, permitindo a entrada e a atuação do novo coronavírus no organismo. A proposta é criar uma vacina mais complexa do ponto de vista imune, que dirija sua resposta contra os epítopos mais importantes nesse processo. 

A vacina desenvolvida pela equipe liderada por Gazinelli, por sua vez, utiliza técnica de genética reversa. Foram identificados onze genes que contém informação para multiplicar o vírus, e um deles será trocado para produzir um antígeno que induz a resposta imune. Assim, o vírus não será capaz de se reproduzir nas células. Ao invés disso, expressará proteínas que vão induzir a resposta imune do corpo. A ideia do grupo é desenvolver uma vacina bivalente para a gripe e para o coronavírus. Embora liderando estudos distintos, Kalil e Gazinelli destacaram que têm colaborado mutuamente no desenvolvimento das duas vacinas. 

Vale lembrar que o novo coronavírus foi identificado em dezembro do ano passado. Até o dia 13 de julho, foram notificados cerca de 13 milhões de casos no mundo e 570 mil mortes. “Em seis meses é muito difícil dar todas as respostas que a sociedade precisa. A cobrança [por vacina] é válida. Nós precisamos de tempo para entender como essa infecção funciona, para entender sua fisiopatologia e sua resposta imune”, ponderou João Viola, moderador do webinário e pesquisador do INCA e da SBI. 

Comunicação
A busca pela vacina tem ocorrido simultaneamente aos estudos sobre as respostas imunológicas ao vírus. “Estamos vivendo um momento sem precedentes na ciência”, afirmou a debatedora Cristina Caldas, diretora de ciências do Instituto Serrapilheira. “Esse momento requer ainda mais responsabilidade e cuidado na comunicação dos dados”. 

Considerada a mais rápida a ser desenvolvida, a vacina contra a caxumba levou quatro anos para ser aprovada. A intenção dos pesquisadores brasileiros, segundo Kalil, é entrar nas fases clínicas do desenvolvimento de vacinas no primeiro semestre de 2021, mas isso depende da evolução das pesquisas.   

“É impressionante o avanço que foi feito”, destacou Manoel Barral Netto. Moderador do evento, o pesquisador da Fiocruz e membro da Rede CoVida e da SBI, Barral acrescentou que a corrida pela vacina respeita os limites de velocidade da ciência. “É impossível ir mais rápido que isso nas condições atuais. Essa maturação da ciência, da pergunta e do pensamento científico, precisa ser entendido”. 

Se há tantos cientistas em tantos países buscando uma, por que ainda não há vacina? “As tecnologias vacinais já são dominadas pelos cientistas há muito tempo. A questão é que estamos com um vírus novo e a gente não sabe qual a melhor resposta imune para esse vírus”, explicou a debatedora Cristina Bonorino, membro da SBI e professora da UFCSPA. “A melhor vacina é a que induz a melhor resposta”, concluiu.

Além disso, é provável que as primeiras vacinas não sejam tão eficientes, segundo os palestrantes. A debatedora Natália Pasternak, diretora do Instituto Questão de Ciência e pesquisadora da USP destacou que é preciso estar preparado para falar sobre isso com o público sem que a credibilidade da ciência seja questionada. 

Ela destacou a desinformação de políticos e médicos e criticou a falta de uma “contribuição mais efetiva” e unificada das sociedades científicas durante a pandemia no Brasil. “Nós queremos que as pessoas compreendam os processos da ciência. Numa situação de emergência, elas infelizmente precisam de um argumento de autoridade, que apesar de não ser o ideal, traria segurança”.

Ou seja, ao contrário do que muitos palpiteiros messiânicos afirmam, os pesquisadores destacaram que, até o momento, não há tratamento efetivo contra a Covid-19, além da terapia que minimiza os danos causados pela doença. “Somente o isolamento social pode resolver o quadro que estamos delineando no país. Esse ainda é o caminho mais importante”, acrescentou João Viola. Não tem jeito: o melhor é esperar a vacina ficando em casa!

Os próximos debates do ciclo de webinários serão “Como testar a Vacina Covid-19 no Brasil?“, no próximo dia 16, e “Desafios da produção e acesso da vacina anti-Covid“, no dia 23 de julho.  Os webinários acontecem das 16 às 18h e podem ser acompanhados no Zoom, mediante inscrição, ou no canal do Cidacs/Fiocruz no Youtube. Confira o primeiro debate:

*Raquel Saraiva – graduanda em Comunicação Social (UFBA), bióloga e mestra em Fisiologia (UFBA), editora do site de divulgação científica Bate-papo Com Netuno. Colabora voluntariamente para a Rede CoVida.

Deixe uma resposta