A marca da maldade: 100 mil mortos

por Claudio Cordovil Oliveira*
Artigo publicado originalmente na newsletter Ferramentas Covid-19, da Rede CoVida**

No momento em que redijo este post, o Brasil alcançou a sinistra marca de 100.584 mortos pela Covid-19, de acordo com o Painel Rede Covida. Isto com menos de 150 dias após a notícia da sua primeira vítima. Famílias pranteiam a perda de seus entes queridos e tiveram que lidar, em muitos casos, com este Dia dos Pais com travo de amargura. Pode-se imaginar a dor destas famílias. A mídia esforça-se por transformar estas doloridas memórias individuais em construtivas memórias coletivas. Em vão? A edição de sábado (08/08) do Jornal Nacional foi especialmente tocante nesse sentido. William Bonner e Renata Vasconcellos dedicaram valiosos minutos daquela edição a esmiuçar o artigo 196 da Constituição Federal, música para os ouvidos de todos nós, profissionais de saúde pública, que diariamente, ao longo de nossas vidas laborais, alertávamos em vão a sociedade para o peso das desigualdades e da determinação social das doenças. O telejornal também repercutiu (no jargão jornalístico) a triste cifra; informou que “o presidente Jair Bolsonaro não se manifestou pessoalmente sobre a tragédia” e teria se limitado a repostar “parte das mensagens que a Secretaria de Comunicação do Planalto tinha publicado em uma rede social em resposta a um post do ex-ministro Sergio Moro”. Ah, ia me esquecendo: o JN também nos informou que o presidente usou as redes sociais, no mesmo dia sombrio, para comemorar a vitória do Palmeiras no Campeonato Paulista. Somos informados, através de uma interessante visualização, que a Covid-19 já é, no Brasil, a principal causa de mortalidade em 2020. O Fantástico buscou dimensionar o que significam 100 mil mortes através de um aplicativo. Somos limitados quando se trata de compreender o alcance de grandes números. O Nexo refez, através de visualizações, o caminho que nos fez chegar a esta cifra e revelou o perfil das vítimas.

Puxando pela memória, recordei-me da primeira iniciativa jornalística de tributo à memória dos que se foram por tragédias semelhantes, mas com cifras incomparavelmente inferiores, mas não menos pranteadas. Tratou-se de Portraits of Grief (Retratos da Dor), série publicada pelo The New York Times, que deu ao jornal o Premio Pulitzer por Serviço Público de 2002. Ao justificar a premiação, o board do Pulitzer destacou que a série “cobriu de forma coerente e abrangente os trágicos eventos, traçou o perfil das vítimas e acompanhou o desenvolvimento da história, local e globalmente”. Dez anos depois, celebrando a proeza, e comentando a sequência criada pelo NYT (Portraits Redrawn), para apurar como as famílias enlutadas estavam, naquela ocasião, o Poynter afirmou que a série

ajudou a preencher uma lacuna na psique dos nova-iorquinos e de todos os americanos, tanto com informações e interpretações críticas quanto com um estilo compassivo.

Em Portraits Redrawn, o que se nota, paradoxalmente, é uma mirada para o futuro, e não mais um olhar para o passado. Constata-se que a grande maioria dos familiares das vítimas haviam dado a volta por cima, como tem de ser. Assim, como em Inumeráveis, estes especiais do New York Times são monumentos nacionais do luto.

Mas é bom que se diga que a memória coletiva nunca foi produto social espontâneo. Sempre foi, isto sim, resultado de embates e guerras narrativas. Maurice Halbwachs, fundador do campo dos estudos da memória nas ciências sociais, destaca, em Memória coletiva, não só o caráter seletivo de toda memória, mas também o fato de ela ser objeto de um processo de “negociação”, para que sejam conciliadas memórias coletivas e individuais:

Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela [a memória dos outros] não tenha deixado de concordar com suas [próprias] memórias e que haja suficientes pontos de contato entre uma e outra, para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum.

Halbwachs acredita que as lembranças mais difíceis de serem recuperadas são justamente aquelas relacionadas a eventos que vivenciamos sozinhos. Isto porque, nesses casos, não há com quem contar para mantermos vivas essas experiências em nossos pensamentos. Incomunicáveis, elas tendem a desvanecer . Por isso os memoriais jornalísticos, monumentos ao luto, são tão importantes.

Resta saber que país sairá deste ordálio por que passamos, que Nação renascerá destas cinzas. O modo com que lidaremos com a memória individual/coletiva sobre estas mortes será o fiel da balança.

Em tempos de pandemia, informação qualificada é o melhor remédio.

 

*Pesquisador em Saude Pública (Fiocruz), Jornalista e Doutor em Comunicação e Cultura

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